São
muitos os momentos que marcaram a minha vida. Desde os felizes aos menos bons,
dos mais simples aos mais complexos, a minha vida, tal com todas as outras, é
marcada por “momentos” em que tudo muda.
Vou contar o momento
que mais me marcou. Por mais estranho que pareça, foi um funeral. O funeral do
meu tio, irmão do meu pai. Nunca tive grande relação afetiva com aquele tio,
isso é verdade, no entanto, sei que nunca esquecerei aqueles dias…
Era um homem nos
quarenta, com três filhos ainda na juventude, um emprego estável, diabético,
problemas de coração e alcoólico. Porém nunca tinha grandes problemas de saúde.
Um dia, o coração parou. Parou por três vezes, e parou para sempre…. O dia do
funeral foi o dia mais difícil para mim. Toda a família estava em choque. Os
próprios filhos é que davam apoio, ironicamente… A sensação de olhar para o
caixão e ver lá o rosto do meu pai, imaginar que mais dia, menos dia, me iria
acontecer o mesmo foi das piores coisas da minha vida. Saber que o meu pai vai
morrer pelo mesmo motivo, por causa do estupido vício do álcool!... Foi um
aperto no peito, o nó na garganta, o sabor a sangue na boca, o arrepio frio de
Janeiro…
Um funeral é sempre um
momento triste e de despedida. Se um chora, todos choram… Vi o meu pai sem
expressão no rosto, sem sentimento algum… Vi o meu primo a abraçar-se ao pai a
dizer: “pai, já estou aqui”, “eu não o vou deixar”, “isto não é um até sempre,
é um até já. Logo já o temos de volta na nossa vida, na nossa casa”… Senti e
vivi aquele funeral como se fosse o funeral do meu próprio pai.
A minha relação com o
meu pai, tal como a dos meus irmãos, nunca foi uma relação pai-filho. O meu pai
sempre foi uma pessoa muito difícil, e tudo o que eu e os meus irmãos temos é
graças à força e à coragem da minha mãe. Sempre lutou, sozinha, para garantir
que nunca nos faltasse nada. Todos nós, os quatro irmãos, começamos a trabalhar
muito cedo para ajudar a minha mãe. Ano após ano, era uma luta constante contra
as loucuras e os desvaneios do meu pai. Nunca deixou o álcool nem o tabaco. As
crises de epilepsia foram-se agravando. Juntou mil e uma doenças ao seu
historial clínico. Passou meses e meses internado, dezenas de vezes entre a
vida e a morte… Nunca se importou. Só se importava em beber. Não percebia o
sofrimento que nos causava… Considero o meu pai, pura e simplesmente meu “dador
de esperma” e, por várias vezes, cheguei a desejar a sua morte. Como é que
alguém deseja a morte do próprio pai? Nem eu sei responder a isso. Angústia,
desespero, rancor… Eu só queria poder ter uma vida, uma vida a sério, sem
preocupações e sofrimento devido às asneiras que fazia. Estava farta das
discussões, de o ouvir renegar o meu irmão, de ouvir “tenho vergonha de ser sua
filha”… A minha mãe tinha vergonha de se separar… Foram anos e anos a fingir
não sofrer, a sofrer para mim, para não preocupar a minha mãe, tal como os meus
irmãos faziam. Não me lembro de ter outra vida. Só recordo dois momentos bons
da minha infância com o meu pai. Estranho, não?
E aquele funeral foi o
culminar de tudo. Imaginar se fosse ele. Sentir a dor de o perder, mas pensar
na quantidade de problemas que acabariam. Tive momentos de choro, de raiva e de
desespero. Nada estava nas minhas mãos. Nem nas da minha mãe ou dos meus irmãos.
Muito menos nas da restante família…
Já se passaram quase
três anos. O que mudou? Ainda não sei ao certo. O que eu mudei? A forma de encarar
a vida. O ódio e o rancor dão lugar à indiferença. Cada vez o seu estado de
saúde é mais reservado. É um aperto no peito vinte e quatro horas por dia, dia
após dia, receio de ser “agora” que lhe volte a dar uma crise de epilepsia, ou
qualquer outra coisa. E quando isso acontece, é ajudá-lo quando ele precisa,
acompanhar o empate do “vive ou morre”, de acompanhar principalmente a minha mãe…
O que aprendi com tudo
isto? Que pai só tenho um. Pode ser bom ou mau, mas não o posso mudar. Não o
posso trocar, muito menos devolver. É esquecer o passado, pensar no hoje e
imaginar que o amanhã será melhor… Como um grande amigo me disse: “o segredo do
sucesso não está em não cair, mas em se conseguir levantar sempre que se cai”.
Só me resta aceitar,
de igual forma, a vida e a morte. É fazer de ambas as experiências motivos para
me tornar forte e vencer as mais rudes circunstâncias da vida…
