No âmbito das atividades desenvolvidas para assinalar o Mês
Internacional das Bibliotecas Escolares, esteve presente na escola, o
Investigador e Bibliotecário, D.r Victor Pinho, para assinalar os 50 anos da morte de Artur
Roriz, um combatente antifascista, uma das figuras barcelenses
mais interessantes do século passado.
Herdeiro dos ideais republicanos
do Cinco de Outubro, manteve-se sempre fiel a esses princípios e foi sempre
um democrata.
Participou, activamente, no combate ao regime ditatorial que vigorou, em
Portugal, durante quarenta e oito anos
derrubado pelo vinte e cinco de Abril. Por isso, foi perseguido e conheceu a prisão.
Homem de carater e culto, foi
um corajoso jornalista e um distinto poeta, tendo sido co-autor de duas peças de teatro de revista levadas ao palco no teatro
Gil Vicente.
Foi primeiro comandante dos Bombeiros Voluntários de Barcelos,
de 1936 a 1942,
Inspector de Incêndios e Delegado Distrital da Liga dos Bombeiros Portugueses .
Nesta cidade, exerceu o cargo de
correspondente do diário
portuense "O Primeiro de Janeiro ".
Distinto poeta, deixou no semanário local "A
Verdade", que foi fundado, em 30 de Março de 1922, e dirigido por si. algumas belas
poesias, com o pseudônimo de Afonso Gorky.
Republicano Histórico, pertenceu ao MUD Movimento
de Unidade Democrática
que apoiou as candidaturas à Presidência da República de Norton de Matos (1949)
e de Humberto Delgado (1958).
Perseguido pela Pide, chegou mesmo a estar detido.
Aquela polícia política tentou prendê-lo, por diversas vezes, em sua casa,
no largo José Novais, onde funciona actualmente o posto de Turismo. Acerca
disso contam-se algumas histórias. Uma vez, disfarçou-se de padre e saiu sem
que os agentes se apercebessem da sua verdadeira identidade. De outra vez,
saltou para o quintal da casa ao lado, Casa dos Machados da Maia (actual
Biblioteca Municipal), onde funcionava um lar de idosas e aí permaneceu. Tendo deslocado um osso da perna foi socorrido
pelo seu amigo Dr. Francisco Torres que
lhe prestou os primeiros socorros, tendo depois saído em maça, para a sua residência, no meio de muita gente que enchia o
largo onde morava e que se regozijava com o facto de não ter sido detido.
Amigo de Abel Salazar, acompanhou-o, em Janeiro
de 1939, numa visita à nossa cidade, à feira e aos oleiros.
Artur Cândido Roriz Pereira nasceu em Barcelos, em 5
de Março de 1891 e faleceu, na mesma localidade, na sua residência, no
largo José Novais. em 30 de Outubro de 1962.
Frequentou o Externato Barcelense e, em Outubro de
1917, em Guimarães, no liceu Martins Sarmento, fez exame do 3° ano do curso
geral dos liceus.
Foi gerente da livraria A.B.C., do Porto, a partir de Outubro de 1930,
tendo ainda trabalhado na Tipografia
"Minerva de Famalicão", do democrata José Casimiro da Silva
Casou com Júlia Gonçalves Ramos Roriz
Pereira, em 11 de Janeiro de 1934, de quem teve descendência.
Jornalista distinto e brilhante,
fundou e dirigiu as publicações barcelenses, "O Despertar'' (1909) e
o semanário "A Verdade"(1922), tendo sido ainda redactor de "A
Opinião"
(1931).
Colaborou ainda em outros jornais, designadamente em "O Barcelense".
Foi autor, juntamente com Décio Nunes e Augusto
Soucasaux, das peças de teatro de revista "Ai que Treta Se
Mariquinhas" e "Ou Vai Ou Racha" que foram representadas no
teatro Gil Vicente, respectivamente em 1935 e 1955.
Exerceu, pelo menos por três vezes, o cargo de
administrador do concelho de Barcelos, durante a 1a República.
A sua acção a favor do voluntariado,
designadamente através de escritos em jornais, foi reconhecida pelo Conselho
Administrativo e Técnico da Liga dos Bombeiros Portugueses que, em sessão de 5 de
Julho de 1937, exarou um voto de profundo reconhecimento.
Em Janeiro de 1939, foi nomeado comandante honorário da Associação
dos Bombeiros da Póvoa de Varzim e em 22 de Agosto de 1945, foi empossado como Comandante Honorário
dos Bombeiros Voluntários de Esposende.
Foi condecorado com a medalha de prata do
Instituto de Socorros a Náufragos, em Dezembro de 1939.
Quando morreu, era funcionário superior da
Companhia Editora do Minho, responsável pela revisão de textos dos livros a
editar e director da Empresa Teatral Gil Vicente.
O escritor barcelense Fernando
Lopes recorda-o, descrevendo-nos o seu retrato físico:
"Tantas vezes
ali entrei, naquele escritório do rés-do-chão. Eu, um jovem ainda. Ele...Bem, sempre o
conheci daquele jeito: um físico seco e sobre o miúdo, o rosto magro, nariz adunco, farta cabeleira
grisalha subindo em cascata de ondas, os olhos claros e vivíssimos, límpidos, irrequietos... Um jovem que nunca pude
entender calhado no fato escuro,
sempre escuro, que a mim parecia vir dos tempos da República. Um jovem, sim, apesar de marcado pelos anos, uma
genica nos gestos, um verbo de fogo, uma
capacidade enorme de acreditar nos homens, no futuro, na vida. Homem que vinha dos tempos, para mim recuadíssimos, da propaganda
republicana, democrata, resistente no fascismo até á morte... "
(...) "...indiscutivelmente uma das poucas figuras "históricas" da cidade. Um dos homens que Barcelos, sem
desonrar-se, não pode esquecer.
" ("Artur
Roriz: um resistente, um amigo", in "Barcelos Popular". n°
75, ano 3,
13/09/1979).
O jornalista Homero Serpa relata que Artur
Roriz Pereira, simpatizante da causa dos Aliados, durante a segunda-guerra
mundial, desempregado e com a promessa de um bom emprego, fez espionagem para os ingleses e divulgou propaganda
inglesa. ("Cândido de Oliveira:
Uma Biografia", 2000). A Pide prendeu-o em 21 de Janeiro de 1942 e só
regressaria da prisão em Março de 1944, mas já não era 1° Comandante dos Bombeiros
Voluntários de Barcelos.
Artur Roriz bateu-se sempre pelos seus ideais,
um Barcelense Ilustre que está consagrado na toponímia da freguesia de Arcozelo.
Texto: Victor Pinho
Esta conferência, foi o culminar das várias iniciativas programadas para o
Mês Internacional das Bibliotecas Escolares.