Poesia não é sentimento, é linguagem. Não é experiência vivida, é experiência de linguagem. Ela não se faz com sentimentos, nem também com ideias, mas com palavras, apenas com palavras. Tudo o que a poesia dá a sentir, tudo o que ela dá a pensar, forma-se nas palavras da poesia e não é sensível nem pensável fora delas. A poesia é criação, e criação com palavras, mas a criação poética consiste em dar forma num dizer a qualquer coisa que excede todo o dizer, em fazer ver num dizer o que, no ser, não é dizível. A experiência poética da linguagem é pois experiência de superação da linguagem através da própria linguagem, experiência de auto-superação da linguagem. A poesia explora as potencialidades da linguagem, ou de uma língua, mas para a levar a um limite em que o seu poder coincide com a sua impotência. A poesia, a linguagem propriamente poética, tece-se nesse limite, nesse ponto de coincidência do poder e da impotência de dizer, o que equivale a afirmar que não há poesia sem um combate com a linguagem que é um combate desta consigo mesma, uma violentação das suas possibilidades. Não há poesia sem uma violência feita à linguagem, a criação poética é essa violência que força a linguagem, ou a língua-mãe do poeta, a abrir-se para um indizível, para um Fora dela, mas um fora que só existe, ou que só é acessível, a partir de dentro, da linguagem mesma, e como o seu limite. Dito de outro modo, a poesia consiste em inventar na língua uma nova língua, uma heterolíngua poética, que faça a língua atingir o seu limite, que ponha toda a língua «fora de si», em transe, suspensa sobre um além ou um aquém dela, sobre um silêncio povoado de visões ou sensações que é todavia um silêncio da própria linguagem, um silêncio só possível na e pela linguagem. A poesia faz-se no «meio» ou na matéria de uma língua, com as palavras de uma língua, mas por ela desviadas da sua significação referencial, das propriedades sintáticas da língua, da função comunicativa (a poesia não comunica, nada tem a comunicar, nenhum dado, ela é descomunicação, «voz do silêncio» como dizia Malraux de toda a expressão artística). Ela faz-se com as palavras práticas da linguagem quotidiana, mas para as recombinar segundo outras regras e assim constituir, por desvio criativo, uma «outra» língua, uma língua de imagens, uma estranha língua pictural. Para criar com elas, com o seu jogo combinatório alógico em «sintaxes de exceção-", com as suas surpreendentes aproximações e afastamentos decorrentes desse jogo, as suas consonâncias e dissonâncias rítmicas e semânticas, sentidos que não são já significações mas visões, «vidências» na aceção rimbaldiana, efeitos extra-linguísticas: uma transcendência luminosa das palavras, palavras alucinadas, palavras-luz. Ou seja. A poesia violenta a linguagem, as suas funções, a sua organização, para a tornar apta para um silêncio só audível porém através da linguagem, para a fazer dizer o silêncio, para a transformar, no limite, em silêncio. Na bela formulação de Ruy Belo, poeta é quem «encontrou ou procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos».
Sousa Dias, O que é a poesia


