23 de março de 2012

O que é a poesia?


Poesia não é sentimento, é linguagem. Não é experiência vivida, é experiência de linguagem. Ela não se faz com sentimentos, nem também com ideias, mas com palavras, apenas com palavras. Tudo o que a poesia dá a sentir, tudo o que ela dá a pensar, forma-se nas palavras da poesia e não é sensível nem pensável fora delas. A poesia é criação, e criação com palavras, mas a criação poética consiste em dar forma num dizer a qualquer coisa que excede todo o dizer, em fazer ver num dizer o que, no ser, não é dizível. A experiência poética da linguagem é pois experiência de superação da linguagem através da própria linguagem, experiência de auto-superação da linguagem. A poesia explora as potencialidades da linguagem, ou de uma língua, mas para a levar a um limite em que o seu poder coincide com a sua impotência. A poesia, a linguagem propriamente poética, tece-se nesse limite, nesse ponto de coincidência do poder e da impotência de dizer, o que equivale a afirmar que não há poesia sem um combate com a linguagem que é um combate desta consigo mesma, uma violentação das suas possibilidades. Não há poesia sem uma violência feita à linguagem, a criação poética é essa violência que força a linguagem, ou a língua-mãe do poeta, a abrir-se para um indizível, para um Fora dela, mas um fora que só existe, ou que só é acessível, a partir de dentro, da linguagem mesma, e como o seu limite. Dito de outro modo, a poesia consiste em inventar na língua uma nova língua, uma heterolíngua poética, que faça a língua atingir o seu limite, que ponha toda a língua «fora de si», em transe, suspensa sobre um além ou um aquém dela, sobre um silêncio povoado de visões ou sensações que é todavia um silêncio da própria linguagem, um silêncio só possível na e pela linguagem. A poesia faz-se no «meio» ou na matéria de uma língua, com as palavras de uma língua, mas por ela desviadas da sua significação referencial, das propriedades sintáticas da língua, da função comunicativa (a poesia não comunica, nada tem a comunicar, nenhum dado, ela é descomunicação, «voz do silêncio» como dizia Malraux de toda a expressão artística). Ela faz-se com as palavras práticas da linguagem quotidiana, mas para as recombinar segundo outras regras e assim constituir, por desvio criativo, uma «outra» língua, uma língua de imagens, uma estranha língua pictural. Para criar com elas, com o seu jogo combinatório alógico em «sintaxes de exceção-", com as suas surpreendentes aproximações e afastamentos decorrentes desse jogo, as suas consonâncias e dissonâncias rítmicas e semânticas, sentidos que não são já significações mas visões, «vidências» na aceção rimbaldiana, efeitos extra-linguísticas: uma transcendência luminosa das palavras, palavras alucinadas, palavras-luz. Ou seja. A poesia violenta a linguagem, as suas funções, a sua organização, para a tornar apta para um silêncio só audível porém através da linguagem, para a fazer dizer o silêncio, para a transformar, no limite, em silêncio. Na bela formulação de Ruy Belo, poeta é quem «encontrou ou procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos».
 Sousa Dias, O que é a poesia

22 de março de 2012

O que é a Poesia

Perguntamos a J.T.R.

 O que é a Poesia?
Ela respondeu.

poesia.


Não me perguntes o que é a poesia: eu não sei nomear o que me vem do lado de dentro.
 Se tudo na vida é poesia, pergunta-me antes o que na vida não é.
Há em mim um amor pela cadência musical dos afectos, que é poesia.
Há em mim um amor pela angústia metafísica das coisas, que é poesia.
 E um desamor por tudo o que não lateja
não vibra
não emociona
não rompe
não quebra
não cai.
A poesia e a ausência dela:
 medidas exactas do meu amor e desamor pelas coisas.
Prenúncios precisos da minha crença nas horas que ficaram por vir.
 Poesia minha que me devolve em cor os dias baços
 E me serena mais
 Que uma religião qualquer.
 Seria preciso que me fosses
 Estranha,
 Externa,
Estéril,
Para conseguir enunciar-te.
 Mas tu és o verso mais universal
 Do meu universo
E vens-me de dentro
Como um suspiro.
 E eu só sei reconhecer-te
 Quando me faltas.
J.T.R.
(ex-aluna da E. S. Barcelinhos)

20 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia

A nossa escola preparou, para o dia 21 de março, um programa especial com várias atividades onde a comunidade escolar é convidada a participar.

O objetivo da iniciativa é tentar despertar a comunidade escolar para a excelência da poesia que está fora das preferências de consumo e que tem dificuldade em conquistar o seu espaço.

Comemorem connosco o DIA MUNDIAL DA POESIA e juntos vamos dar as boas vindas à primavera e aclamar a chegada das andorinhas.





Vencedores do Concurso "Faça Lá um Poema" 2012


O Júri do Concurso divulgou, a 16 de Março de 2012, a lista de todos os vencedores do Concurso, "Faça lá Um Poema". Os prémios serão entregues no dia 21 de março, no CCB.

A nossa escola participou com poemas nos níveis de 3º ciclo e secundário.

1º lugar, 3º ciclo
Estou aqui eu a escrever,
Com receio de algum erro cometer,
Estou aqui eu a inventar,
Com receio de poder falhar.

Não tenho medo do que os outros possam dizer,
Relativamente ao que eu possa escrever,
Acham que isto não é poema?
Pois isto é o meu lema.

Posso não ser poeta, nem um grande compositor,
Mas escrevo o que sei, sem nenhum favor,
E eu aqui, estou a improvisar.

O improviso é uma coisa que vem do coração,
E que quiser que dê a sua opinião,
Venham lá criticar que estou a ouvir,
Com os críticos a opinar, até me vou rir,
Porque este poema foi feito para me divertir.

João Romão Pedrosa Ferreira 8ºA nº14

1º lugar, secundário
Hoje sentei-me no banco do jardim
onde nós, por feito do destino nos conhecemos,
onde nos sentávamos a impor palavras,
onde víamos o sol nascer com o cantar dos pássaros
e pôr-se atrás do mar que se silenciava.
Mas hoje tudo isto me pareceu estranho.
O sol nasceu e os pássaros emudeceram
e, quando se pôs, as ondas do mar rebentaram.
Faltava-me completar o dia com as tuas palavras.
Todavia, tu não estavas lá empiricamente.
O teu perfume não o levava o vento,
nem a tua voz se sobrepunha aos passos na calçada.
Hoje, tu não existias naquele jardim.
Ninguém deu pela tua falta na rua
porque nunca contaram as flores dos canteiros.
Mas eu contei e hoje faltava a mais formosa.
Desapareceu o aroma do fado da praça
cantado pela singular voz de um adolescente,
que entre as notas da guitarra portuguesa dizia:
Chorem os céus com tanto brilhar,
Hoje morreu a esperança com aquele luar.

Pedro Manuel Simões Fernandes nº 20. 11º A


Parabéns aos nossos alunos concorrentes e aos vencedores desta fase final do concurso.

12 de março de 2012

Semana da Leitura no Centro de Dia e JI de Barcelinhos

Professores e alunos juntaram-se para ler poesia, aos meninos do Jardim de infância e aos idosos do Centro de dia de Barcelinhos, e desta forma comemorar a semana da leitura.

Semana da Leitura: Centro de Saúde de Barcelinhos

A caminhada da leitura iniciou-se na escola, com professores e alunos, para levar a poesia aos utentes do centro de saúde de Barcelinhos. De uma forma espontânea disse-se poesia em todas as salas de espera, para quem ali estava à espera de ser atendido. Estupefactos, os utentes, ouviram e aplaudiram esta iniciativa.

6 de março de 2012

Conto-te na BE - JI do Centro Social de Barcelinhos

As professoras de Biologia, Susana Sá e Emília Poças, acompanhadas por cinco alunas do 10º ano do curso Animador Sociocultural, fizeram as delícias dos meninos e meninas do JI de Barcelinhos em mais um "Conto-te na BE". Foram várias as histórias contadas mas, o total entusiasmo deu-se quando as crianças realizaram experiências e observaram, à lupa binocular, rochas, plantas e animais. Por momentos estes meninos sentiram-se verdadeiros cientistas.

2 de março de 2012

Palestra sobre Conhecimento e Realidade com o Doutor Artur Galvão


No dia 27 de Fevereiro, pelas 10h15m, o Dr. Artur Galvão, professor da Faculdade de Filosofia de Braga, da Universidade Católica Portuguesa, esteve na nossa Escola para uma palestra/aula aberta sobre o tema "Conhecimento, Realidade e Cepticismo". Esta atividade teve como destinatários os alunos de Filosofia do 11º Ano e nela participaram 3 turmas. O Dr. Artur brindou os alunos e professores com uma apresentação compreensível, com um dinamismo que implicou os alunos, interagindo com alguns deles de uma forma muito clara e acessível. Através de um diálogo com os alunos, o Dr Artur foi apresentando e clarificando as noções de conhecimento e de realidade, procurando responder à questão lançada inicialmente: como posso saber alguma coisa? Com o apoio do diálogo estabelecido com os mais intervenientes, semelhante ao diálogo socrático, e com o recurso a pequenos excertos do filme " Matrix " o Dr Artur Galvão conseguiu cativar os alunos e incentivá-los a reflectir sobre a problemática do conhecimento humano. Em especial, o argumento de Hillary Putnam, " o cérebro na cuba" (segundo o qual "o cérebro de uma pessoa foi removido do corpo e colocado numa cuba de nutrientes que o mantém vivo. Os terminais nervosos foram ligados a um supercomputador científico que faz com que a pessoa de quem é o cérebro tenha a ilusão de que tudo está perfeitamente normal. Parece haver pessoas, objectos, o céu, etc. mas realmente tudo o que a pessoa, está experienciando é o resultado de impulsos electrónicos deslocando-se do computador para os terminais nervosos. O computador (...) pode fazer com que a vítima "experiencie" (ou se alucine com) qualquer situação ou ambiente que ele deseje. Ele pode também apagar a memória com que o cérebro opera, de modo que à própria vítima lhe parecerá ter estado sempre neste ambiente. Pode mesmo parecer à vítima que ela está sentada e a ler estas mesmas palavras sobre a divertida mas completamente absurda suposição de que há um cientista perverso que remove os cérebros das pessoas dos seus corpos e os coloca numa cuba de nutrientes que os mantém vivos. Os terminais nervosos é suposto estarem ligados a um supercomputador científico que faz com que a pessoa de quem é o cérebro tenha a ilusão de que...), proporcionou uma participação animada e interessado por parte dos alunos.

Pensamento do mês de março


1 de março de 2012

Diários de escrita, por Sérgio Carvalho.

"Carta." 
Pensei entregar-te uma carta e colocar lá tudo aquilo que sinto por ti.
Uma folha A4 não chegaria, uma caneta de tinta permanente talvez fosse pouco; um envelope… sem selo porque o portador dessa carta saberia onde é a tua caixa de correio.
Desenharia o teu nome com o cuidado de chinês a escrever os seus carateres; escreveria mil, duas mil, três mil palavras.
Não chega, quero sempre mais e mais e mais.
Sinto um vazio, um cansaço enorme só de caminhar ao teu lado, só de escrever estas palavras todas.
Rasguei a carta, rasguei-a e guardar os bocados numa caixa no fundo do armário.
Estive várias vezes perto de dizer por palavras aquilo que escrevi neste bloco. Bastava formar a forma verbal do presente. Começo com o “eu” mas o resto esvai-se num lamurio.
Engulo em seco!
Levanto-me. Abro o armário. Procuro aquela caixa. Os papeis estão lá, tal e qual como eu os deixei.
Começo a chorar: por uma série de razões que não interessam, que não me interessam. Mas choro!
Pego nos restos da carta “ridícula”, como o poeta a caracterizaria, e atiro-os para o meio do quarto com um grito.  
Abrir aquela caixa só me fez chorar. Abrir aquela caixa só me fez ver que perdi a vontade de te amar, apesar de o querer. Aquela caixa… aquela malfadada caixa.
Olho pela janela: vejo neve a cair e penso em escrever uma nova carta. Desta vez, o assunto não seria o que eu sinto mas o que tu sentes, qual Houdini a adivinhar os pensamentos dos outros.  
A carta poderia ter floreados, juras, promessas ou simplesmente ter três letras redondas: um “N”, um “A” com um til e um “O”. Essas letras dir-me-ias a mim quando eu te confrontasse e te dissesse aquilo que escrevi naquela carta ridícula.
Uma voz soa-me na cabeça: é a minha própria voz, a minha própria consciência a dizer-me para ignorar os pensamentos.  
Olho para o meu bloco e os olhos desviam-se para os bocados de papel que havia lançado para o meio do quarto momentos antes.  
Pego na caneta… e começo a escrever. 

Pensamento do mês - setembro