O meu irmão Zé disse que vinha a minha casa para me ensinar a morrer. Disse-me que tem um poema mais eficaz e menos doloroso do que os remédios.
O meu irmão Zé tem poemas que as raparigas adoram, guardam-nos debaixo do travesseiro e põem-se a sonhar com bigamias.
Tem dias que grita porque Deus não tem vergonha de tanta ausência.
É um tormento para os escritores clássicos, é uma casa onde o céu e a terra dormem na mesma cama. É um peregrino às voltas no seu quarto.
O meu irmão Zé tem silêncios que abafam o lume, tem filhos que lhe custaram o sangue. E tem poemas mais importantes do que estar vivo.
Quem os lê cega-se e depois olha-se como um pássaro em regresso. Quem neles acha o mistério enlouquece igual a um útero que guarda segredos.
O irmão Zé nasceu absurdo, é uma história mal contada, porque as histórias bem contadas contêm homens vazios. E o irmão Zé vai ser castigado um dia porque tem poemas que faz as raparigas perderem as virgindades cedo.
O irmão Zé disse que vinha a minha casa regar as plantas, espremer palavras para dentro de um vaso, tirar a solidão da má vida, mas não veio. Disse que ia ter com a noite para lhe ralhar e que depois disso iria escrever, escrever, escrever até que as árvores se levantem sem dor, e a sorrir.
Flávio Lopes da Silva, 15
de Dezembro 2011

0 comentários:
Enviar um comentário